segunda-feira, dezembro 19, 2011
quinta-feira, dezembro 08, 2011
terça-feira, dezembro 06, 2011
Vejam, e aprendam, brasileiros.
Em Portugal, houve um aumento generalizado de todos os impostos: no consumo, a taxa máxima do imposto sobre o valor agregado passou de 20% para 23%. Houve aumentos para produtos específicos como tabaco, álcool e automóvel. O imposto de renda teve a taxa máxima elevada de 45% para 49%. O país estabeleceu um teto para as deduções fiscais de despesas das famílias com saúde e educação. Para casais com rendimentos acima de 66 mil euros por ano, por exemplo, houve cancelamento de quaisquer deduções fiscais. O imposto sobre o patrimônio imobiliário também foi aumentado. Do lado das despesas, Portugal reduziu os salários dos funcionários públicos, entre 5% e 10%, e anunciou que, nos próximos dois anos, todos os funcionários públicos com rendimentos acima de 485 euros mensais perderão em média um salário por ano. Os funcionários públicos com salários mensais acima de 1.500 euros perderão dois salários. Isso porque, em Portugal, os trabalhadores recebem 14 salários por ano - 12 salários mais subsídio de férias e subsídio de Natal. Nos próximos dois anos, os funcionários do Estado só receberão, portanto, 12 desses 14 salários. Também os aposentados portugueses terão um corte idêntico ao dos funcionários do Estado: redução em média de 5% dos vencimentos, mais corte de duas pensões por ano, para pensionistas que recebam mais de 1.500 euros por mês. Está previsto um imposto adicional sobre as pensões acima de 5.000 euros mensais. Nas empresas privadas, os trabalhadores vão passar a trabalhar o equivalente a mais meia hora por dia, sem qualquer aumento salarial, e o número de feriados foi reduzido. Também há redução das indenizações em caso de demissão. O governo português promoveu ainda uma redução generalizada de benefícios sociais: houve corte do valor e do prazo para concessão do auxílio desemprego, redução do número de beneficiários de subsídios como o abono de família (dado em função do número de filhos) e cortes nos subsídios a medicamentos. O país promoveu ainda aumentos das tarifas de serviços como transportes públicos, água, eletricidade e gasolina.
Resultado:
Portugal vive uma greve geral nesta quinta-feira. A paralisação em Portugal afeta principalmente os serviços públicos. Mais de 470 voos internacionais foram cancelados - entre eles 20 da TAP que tinham o Brasil como destino ou ponto de partida - e quase um milhão de pessoas tiveram que chegar ao seus destinos sem os serviços normais de ônibus ou trens. O metrô de Lisboa também está fechado. Escritórios do governo, escolas, correios, a coleta de lixo e outros serviços públicos também interromperam suas atividades.Os motivos das paralisações na Europa são os mesmos: protestar contra as medidas de austeridade anunciadas por seus governos para estancar a crise na endividada zona do euro. Por enquanto, nenhuma medida teve força para mudar o cenário e os problemas se agravam. Na prática, a população se vê obrigada a pagar a conta da gastança feita por seus governantes. A conta para o cidadão comum está vindo na forma de cortes de benefícios sociais, demissões em massa e aumento de impostos.
Cadê os manifestos e as paralisações no Brasil?
quarta-feira, novembro 02, 2011
terça-feira, novembro 01, 2011
Por que o Brasil continua pobre?
Foi na crença de que seria suficiente ter "riquezas naturais exuberantes e grande capacidade de crescimento" que o país não consegue ser tão desenvolvido quanto países que se dedicaram ao desenvolvimento de tecnologias capazes de acrescentar valor à matéria prima. Uma das preocupações dos colonizadores dos Estados Unidos da América, por exemplo, foi de criar uma estrutura educacional em condições de capacitar mão-de-obra e de pesquisar. Isso ajuda a explicar a riqueza desse país. O investimento em capital humano e em tecnologia, neste país, não teve (e não tem) suficiente prioridade cedendo espaço para encaminhamentos imediatistas para a erradicação da pobreza. Há uma característica infeliz no sistema educacional brasileiro: a priorização da informação em detrimento da capacidade de resolver problemas. Não se vê, no sistema educacional brasileiro, a preocupação pelo treinamento voltado à adequada definição de problemas, busca e organização das informações e o inteligente encaminhamento de soluções. As escolas se limitam a fornecer informações para serem memorizadas e pouco adestramento.
quinta-feira, outubro 27, 2011
O que é mais provável: uma prostituta ser presa por um policial ou “sair” com ele?
A resposta nem deve chocar, né? Sair com o policial – e, geralmente, oferecendo um “servicinho” grátis. Ao menos é o que diz o estudo do sociólogo indiano Sudhir Alladi Venkatesh e do economista americano Steven D. Levitt. E ao menos em Chicago, nos EUA. Por lá, os caras foram para a rua, observaram a dinâmica da prostituição, cruzaram dados levantados por estudos anteriores com registros da polícia e jogaram essa: as prostitutas em atividade nas ruas de Chicago (cerca de 4.400 “numa semana normal”, segundo eles, ganhando entre 25 e 30 dólares por hora) são abordadas pela polícia em apenas um a cada 450 “atendimentos” feitos. E, das que são detidas pelos policiais, só uma em dez vai, de fato, presa. “Entre as prostitutas que não trabalham com cafetões”, que garantem mais segurança e melhores qualidades de trabalho para as moças, também diz o estudo, “cerca de 3% de todos os ‘encontros’ são ‘presentinhos’ para a polícia”. Ah, outro dado relevante que os caras trazem: elas só usam preservativo em 1/4 das vezes. Ou seja: bonita, para a classe, a coisa não está.
Maconha: Tudo o que você quer saber sobre a droga mais consumida no mundo. [PARTE II]
Maconha faz mal? Taí uma pergunta que vem sendo feita faz tempo. Depois de mais de um século de pesquisas, a resposta mais honesta é: faz, mas muito pouco e só para casos extremos. O uso moderado não faz mal. A preocupação da ciência com esse assunto começou em 1894, quando a Índia fazia parte do Império Britânico. Havia, então, a desconfiança de que o bhang, uma bebida à base de maconha muito comum na Índia, causava demência. Grupos religiosos britânicos reivindicavam sua proibição. Formou-se a Comissão Indiana de Drogas da Cannabis, que passou dois anos investigando o tema. O relatório final desaconselhou a proibição: “O bhang é quase sempre inofensivo quando usado com moderação e, em alguns casos, é benéfico. O abuso do bhang é menos prejudicial que o abuso do álcool”. Em 1944, um dos mais populares prefeitos de Nova York, Fiorello La Guardia, encomendou outra pesquisa. Em meio à histeria antimaconha de Anslinger, La Guardia resolveu conferir quais os reais riscos da tal droga assassina. Os cientistas escolhidos por ele fizeram testes com presidiários (algo comum na época) e concluíram: “O uso prolongado da droga não leva à degeneração física, mental ou moral”. O trabalho passou despercebido no meio da barulheira proibicionista de Anslinger. A partir dos anos 60, várias pesquisas parecidas foram encomendadas por outros governos. Relatórios produzidos na Inglaterra, no Canadá e nos Estados Unidos aconselharam um afrouxamento nas leis. Nenhuma dessas pesquisas foi suficiente para forçar uma mudança. Mas a experiência mais reveladora sobre a maconha e suas conseqüências foi realizada fora do laboratório. Em 1976, a Holanda decidiu parar de prender usuários de maconha desde que eles comprassem a droga em cafés autorizados. Resultado: o índice de usuários continua comparável aos de outros países da Europa. O de jovens dependentes de heroína caiu – estima-se que, ao tirar a maconha da mão dos traficantes, os holandeses separaram essa droga das mais pesadas e, assim, dificultaram o acesso a elas. Nos últimos anos, os possíveis males da maconha foram cuidadosamente escrutinados – às vezes por pesquisadores competentes, às vezes por gente mais interessada em convencer os outros da sua opinião. Não se provou nenhuma relação direta entre fumar maconha e câncer de pulmão, traquéia, boca e outros associados ao cigarro. Isso não quer dizer que não haja. Por muito tempo, os riscos do cigarro foram negligenciados e só nas últimas duas décadas ficou claro que havia uma bomba-relógio armada – porque os danos só se manifestam depois de décadas de uso contínuo. Há o temor de que uma bomba semelhante esteja para explodir no caso da maconha, cujo uso se popularizou a partir dos anos 60. O que se sabe é que o cigarro de maconha tem praticamente a mesma composição de um cigarro comum – a única diferença significativa é o princípio ativo. No cigarro é a nicotina, na maconha o tetrahidrocanabinol, ou THC. Também é verdade que o fumante de maconha tem comportamentos mais arriscados que o de cigarro: traga mais profundamente, não usa filtro e segura a fumaça por mais tempo no pulmão (o que, aliás, segundo os cientistas, não aumenta os efeitos da droga). Em compensação, boa parte dos maconheiros fuma muito menos e pára ou reduz o consumo depois dos 30 anos (parar cedo é sabidamente uma forma de diminuir drasticamente o risco de câncer). Em resumo: o usuário eventual de maconha, que é o mais comum, não precisa se preocupar com um aumento grande do risco de câncer. Quem fuma mais de um baseado por dia há mais de 15 anos deve pensar em parar. Algo entre 6% e 12% dos usuários, dependendo da pesquisa, desenvolve um uso compulsivo da maconha (menos que a metade das taxas para álcool e tabaco). A questão é: será que a maconha é a causa da dependência ou apenas uma válvula de escape. “Dependência de maconha não é problema da substância, mas da pessoa”, afirma o psiquiatra Dartiu Xavier, coordenador do Programa de Orientação e Atendimento a Dependentes da Escola Paulista de Medicina. Segundo Dartiu, há um perfil claro do dependente de maconha: em geral, ele é jovem, quase sempre ansioso e eventualmente depressivo. Pessoas que não se encaixam nisso não desenvolvem o vício. “E as que se encaixam podem tanto ficar dependentes de maconha quanto de sexo, de jogo, de internet”, diz. Muitos especialistas apontam para o fato de que a maconha está ficando mais perigosa – na medida em que fica mais potente. Ao longo dos últimos 40 anos, foi feito um melhoramento genético, cruzando plantas com alto teor de THC. Surgiram variedades como o skunk. No último ano, foram apreendidos carregamentos de maconha alterada geneticamente no Leste europeu – a engenharia genética é usada para aumentar a potência, o que poderia aumentar o potencial de dependência. Segundo o farmacólogo Leslie Iversen, autor do ótimo The Science of Marijuana (A ciência da maconha, sem tradução para o português) e consultor para esse tema da Câmara dos Lordes (o Senado inglês), esses temores são exagerados e o aumento da concentração de THC não foi tão grande assim. Para além dessa discussão, o fato é que, para quem é dependente, maconha faz muito mal. Isso é especialmente verdade para crianças e adolescentes. “O sujeito com 15 anos não está com a personalidade formada. O uso exagerado de maconha pode ser muito danoso a ele”, diz Dartiu. O maior risco para adolescentes que fumam maconha é a síndrome amotivacional, nome que se dá à completa perda de interesse que a droga causa em algumas pessoas. A síndrome amotivacional é muito mais freqüente em jovens e realmente atrapalha a vida – é quase certeza de bomba na escola e de crise na família. “Maconha mata neurônios.” Essa frase, repetida há décadas, não passa de mito. Bilhões de dólares foram investidos para comprovar que o THC destrói tecido cerebral – às vezes com pesquisas que ministravam doses de elefante em ratinhos –, mas nada foi encontrado. Muitas experiências foram feitas em busca de danos nas capacidades cognitivas do usuário de maconha. A maior preocupação é com a memória. Sabe-se que o usuário de maconha, quando fuma, fica com a memória de curto prazo prejudicada. São bem comuns os relatos de pessoas que têm idéias que parecem geniais durante o “barato”, mas não conseguem lembrar-se de nada no momento seguinte. Isso acontece porque a memória de curto prazo funciona mal sob o efeito de maconha e, sem ela, as memórias de longo prazo não são fixadas (é por causa desse “desligamento” da memória que o usuário perde a noção do tempo). Mas esse dano não é permanente. Basta ficar sem fumar que tudo volta a funcionar normalmente. O mesmo vale para o raciocínio, que fica mais lento quando o usuário fuma muito freqüentemente. Há pesquisas com usuários “pesados” e antigos, aqueles que fumam vários baseados por dia há mais de 15 anos, que mostraram que eles se saem um pouco pior em alguns testes, principalmente nos de memória e de atenção. As diferenças, no entanto, são sutis. Na comparação com o álcool, a maconha leva grande vantagem: beber muito provoca danos cerebrais irreparáveis e destrói a memória. O uso de maconha dilata os vasos sangüíneos e, para compensar, acelera os batimentos cardíacos. Isso não oferece risco para a maioria dos usuários, mas a droga deve ser evitada por quem sofre do coração.
Pesquisas mostraram que o usuário freqüente tem o número de espermatozóides reduzido. Ninguém conseguiu provar que isso possa causar infertilidade, muito menos impotência. Também está claro que os espermatozóides voltam ao normal quando se pára de fumar. Nos anos 70, descobriu-se que o THC afeta os glóbulos brancos, células de defesa do corpo. No entanto, nenhuma pesquisa encontrou relação entre o uso de maconha e a incidência de infecções. No passado, acreditava-se que maconha causava demência. Isso não se confirmou, mas sabe-se que a droga pode precipitar crises em quem já tem doenças psiquiátricas. Algumas pesquisas apontaram uma tendência de filhos de mães que usaram muita maconha durante a gravidez de nascer com menor peso. Outras não confirmaram a suspeita. De qualquer maneira, é melhor evitar qualquer droga psicoativa durante a gestação. Sem dúvida, a mais perigosa delas é o álcool. Maconha faz bem? No geral, não. A maioria das pessoas não gosta dos efeitos e as afirmações de que a erva, por ser “natural”, faz bem, não passam de besteira. Outros adoram e relatam que ela ajuda a aumentar a criatividade, a relaxar, a melhorar o humor, a diminuir a ansiedade. É inevitável: cada um é um. O uso medicinal da maconha é tão antigo quanto a maconha. Hoje há muitas pesquisas com a cannabis para usá-la como remédio. Segundo o farmacólogo inglês Iversen, não há dúvidas de que ela seja um remédio útil para muitos e fundamental para alguns, mas há um certo exagero sobre seus potenciais. Em outras palavras: a maconha não é a salvação da humanidade. Um dos maiores desafios dos laboratórios é tentar separar o efeito medicinal da droga do efeito psicoativo – ou seja, criar uma maconha que não dê “barato”. Muitos pesquisadores estão chegando à conclusão de que isso é impossível: aparentemente, as mesmas propriedades químicas que alteram a percepção do cérebro são responsáveis pelo caráter curativo. Esse fato é uma das limitações da maconha como medicamento, já que muitas pessoas não gostam do efeito mental. No Brasil, assim como em boa parte do mundo, o uso médico da cannabis é proibido e milhares de pessoas usam o remédio ilegalmente. Pessoas tratadas com quimioterapia muitas vezes têm enjôos terríveis, eventualmente tão terríveis que elas preferem a doença ao remédio. Há medicamentos para reduzir esse enjôo e eles são eficientes. No entanto, alguns pacientes não respondem a nenhum remédio legal e respondem maravilhosamente à maconha. Era o caso do brilhante escritor e paleontólogo Stephen Jay Gould, que, no mês passado, finalmente, perdeu uma batalha de 20 anos contra o câncer (veja mais sobre ele na página 23). Gould nunca tinha usado drogas psicoativas – ele detestava a idéia de que interferissem no funcionamento do cérebro. Veja o que ele disse: “A maconha funcionou como uma mágica. Eu não gostava do ‘efeito colateral’ que era o borrão mental. Mas a alegria cristalina de não ter náusea – e de não experimentar o pavor nos dias que antecediam o tratamento – foi o maior incentivo em todos os meus anos de quimioterapia”. Maconha dá fome. Qualquer um que fuma sabe disso (aliás, esse é um de seus inconvenientes: ela engorda). Nenhum remédio é tão eficiente para restaurar o peso de portadores do HIV quanto a maconha. E isso pode prolongar muito a vida: acredita-se que manter o peso seja o principal requisito para que um soropositivo não desenvolva a doença. O problema: a cannabis tem uma ação ainda pouco compreendida no sistema imunológico. Sabe-se que isso não representa perigo para pessoas saudáveis, mas pode ser um risco para doentes de Aids. Essa doença degenerativa do sistema nervoso é terrivelmente incômoda e fatal. Os doentes sentem fortes espasmos musculares, muita dor e suas bexigas e intestinos funcionam muito mal. Acredita-se que ela seja causada por uma má função do sistema imunológico, que faz com que as células de defesa ataquem os neurônios. A maconha alivia todos os sintomas. Ninguém entende bem por que ela é tão eficiente, mas especula-se que tenha a ver com seu pouco compreendido efeito no sistema imunológico. A cannabis é um analgésico usado em várias ocasiões. Os relatos de alívio das cólicas menstruais são os mais promissores. Essa doença caracteriza-se pelo aumento da pressão do líquido dentro do olho e pode levar à cegueira. Maconha baixa a pressão intraocular. O problema é que, para ser um remédio eficiente, a pessoa tem que fumar a cada três ou quatro horas, o que não é prático e, com certeza, é nocivo (essa dose de maconha deixaria o paciente eternamente “chapado”). Há estudos promissores com colírios feitos à base de maconha, que agiriam diretamente no olho, sem afetar o cérebro. Maconha é um remédio leve e pouco agressivo contra a ansiedade. Isso, no entanto, depende do paciente. Algumas pessoas melhoram após fumar; outras, principalmente as pouco habituadas à droga, têm o efeito oposto. Também há relatos de sucesso no tratamento de depressão e insônia, casos em que os remédios disponíveis no mercado, embora sejam mais eficientes, são também bem mais agressivos e têm maior potencial de dependência. Dois psiquiatras brasileiros, Dartiu Xavier e Eliseu Labigalini, fizeram uma experiência interessante. Incentivaram dependentes de crack a fumar maconha no processo de largar o vício. Resultado: 68% deles abandonaram o crack e, depois, pararam espontaneamente com a maconha, um índice altíssimo. Segundo eles, a maconha é um remédio feito sob medida para combater a dependência de crack e cocaína, porque estimula o apetite e combate a ansiedade, dois problemas sérios para cocainômanos. Dartiu e Eliseu pretendem continuar as pesquisas, mas estão com problemas para conseguir financiamento – dificilmente um órgão público investirá num trabalho que aposte nos benefícios da maconha. O primeiro registro do contato entre o Homo sapiens e a Cannabis sativa é de 6 000 anos atrás. Trata-se da marca de uma corda de cânhamo impressa em cacos de barro, na China. O emprego da fibra, não só em cordas mas também em vários tecidos e, depois, na fabricação de papel, é um dos mais antigos usos da maconha. Graças a ele, a planta, original da região ao norte do Afeganistão, nos pés do Himalaia, tornou-se a primeira cultivada pelo homem com usos não alimentícios e espalhou-se por toda a Ásia e depois pela Europa e África. Mas há um uso da maconha que pode ser tão antigo quanto o da fibra do cânhamo: o medicinal. Os chineses conhecem há pelo menos 2 000 anos o poder curativo da droga, como prova o Pen-Ts’ao Ching, considerado a primeira farmacopéia conhecida do mundo (farmacopéia é um livro que reúne fórmulas e receitas de medicamentos). O livro recomenda o uso da maconha contra prisão-de-ventre, malária, reumatismo e dores menstruais. Também na Índia, a erva já há milênios é parte integral da medicina ayurvédica, usada no tratamento de dezenas de doenças. Sem falar que ela ocupa um lugar de destaque na religião hindu. Pela mitologia, maconha era a comida favorita do deus Shiva, que, por isso, viveria o tempo todo “chapado”. Tomar bhang seria uma forma de entrar em comunhão com Shiva. O Hinduísmo não é a única religião a dar destaque para a cannabis. Para os budistas da tradição Mahayana, Buda passou seis anos comendo apenas uma semente de maconha por dia. Sua iluminação teria sido atingida após esse período de quase-jejum. Da Índia, a maconha migrou para a Mesopotâmia, ainda em tempos pré-cristãos, e de lá para o Oriente Médio. Portanto, ela já estava presente na região quando começou a expansão do Império Árabe. Com a proibição do álcool entre o povo de Maomé, iniciou-se uma acalorada discussão sobre se a maconha deveria ser banida também. Por séculos, consumiu-se cannabis abundantemente nas terras muçulmanas até que, na Idade Média, muitos islâmicos abandonaram o hábito. A exceção foram os sufi, membros de uma corrente considerada mais mística e esotérica do Islã, que, até bem recentemente, consideravam a cannabis fundamental em seus ritos.
Os gregos usaram velas e cordas de cânhamo nos seus navios, assim como, depois, os romanos. Sabe-se que o Império Romano tinha pelo menos conhecimento dos poderes psicoativos da maconha. O historiador latino Tácito, que viveu no século I d.C., relata que os citas, um povo da atual Turquia, tinham o costume de armar uma tenda, acender uma fogueira e queimar grande quantidade de maconha. Daí ficavam lá dentro, numa versão psicodélica do banho turco. Graças ao contato com os árabes, grande parte da África conheceu a erva e incorporou-a aos seus ritos e à sua medicina – dos países muçulmanos acima do Saara até os zulus da África do Sul. A Europa toda também passou a plantar maconha e usava extensivamente a fibra do cânhamo, mas há raríssimos registros do seu uso como psicoativo naquele continente. Pode ser que isso se deva ao clima. O THC é uma resina produzida pela planta para proteger suas folhas e flores do sol forte. Na fria Europa, é possível que tenha se desenvolvido uma variação da Cannabis sativa com menos THC, já que não havia tanto sol para ameaçar o arbusto. O fato é que, na Renascença, a maconha se transformou no principal produto agrícola da Europa. E sua importância não foi só econômica: a planta teve uma grande participação na mudança de mentalidade que ocorreu no século XV. Os primeiros livros depois da revolução de Gutemberg foram impressos em papel de cânhamo. As pinturas dos gênios da arte eram feitas em telas de cânhamo (canvas, a palavra usada em várias línguas para designar “tela”, é uma corruptela holandesa do latim cannabis). E as grandes navegações foram impulsionadas por velas de cânhamo – segundo o autor americano Rowan Robinson, autor de O Grande Livro da Cannabis, havia 80 toneladas de cânhamo, contando o velame e as cordas, no barco comandado por Cristóvão Colombo em 1496. Ou seja, a América foi descoberta graças à maconha. Irônico. Sobre as luzes da Renascença caíram as sombras da Inquisição – um período em que a Igreja ganhou muita força e passou a exercer o papel de polícia, julgando hereges em seu tribunal e condenando bruxas à fogueira. “As bruxas nada mais eram do que as curandeiras tradicionais, principalmente as de origem celta, que utilizavam plantas para tratar as pessoas, às vezes plantas com poderes psicoativos”, diz o historiador Henrique Carneiro, especialista em drogas da Universidade Federal de Ouro Preto. Não há registros de que maconheiros tenham sido queimados no século XVI – inclusive porque o uso psicoativo da maconha era incomum na Europa –, mas é certo que cristalizou-se naquela época uma antipatia cristã por plantas que alteram o estado de consciência. “O Cristianismo afirmou seu caráter de religião imperial e, sob seus domínios, a única droga permitida é o álcool, associado com o sangue de Cristo”, diz Henrique. Em 1798, as tropas de Napoleão conquistaram o Egito. Até hoje não estão muito claras as razões pelas quais o imperador francês se aventurou no norte da África (vaidade, talvez). Mas pode ser que o principal motivo fosse a intenção de destruir as plantações de maconha, que abasteciam de cânhamo a poderosa Marinha da Inglaterra. O fato é que coube a Napoleão promulgar a primeira lei do mundo moderno proibindo a maconha. Os egípcios eram fumantes de haxixe, a resina extraída da folha e da flor da maconha constituída de THC concentrado. Mas a proibição saiu pela culatra. Os egípcios ignoraram a lei e continuaram fumando como sempre fizeram. Em compensação, os europeus ouviram falar da droga e ela rapidamente virou moda na Europa, principalmente entre os intelectuais. “O haxixe está substituindo o champagne”, disse o escritor Théophile Gautier em 1845, depois da conquista da Argélia, que, na época, era outro grande consumidor de THC. No Brasil, a planta chegou cedo, talvez ainda no século XVI, trazida pelos escravos (o nome “maconha” vem do idioma quimbundo, de Angola. Mas, até o século XIX, era mais usual chamar a erva de fumo-de-angola ou de diamba, nome também quimbundo). Por séculos, a droga foi tolerada no país, provavelmente fumada em rituais de candomblé (teria sido o presidente Getúlio Vargas que negociou a retirada da maconha dos terreiros, em troca da legalização da religião). Em 1830, o Brasil fez sua primeira lei restringindo a planta. A Câmara Municipal do Rio de Janeiro tornou ilegal a venda e o uso da droga na cidade e determinou que “os contraventores serão multados, a saber: o vendedor em 20 000 réis, e os escravos e demais pessoas, que dele usarem, em três dias de cadeia.” Note que, naquela primeira lei proibicionista, a pena para o uso era mais rigorosa que a do traficante. Há uma razão para isso. Ao contrário do que acontece hoje, o vendedor vinha da classe média branca e o usuário era quase sempre negro e escravo. Segundo dados da ONU, 147 milhões de pessoas fumam maconha no mundo, o que faz dela a terceira droga psicoativa mais consumida do mundo, depois do tabaco e do álcool. A droga é proibida em boa parte do mundo, mas, desde que a Holanda começou a tolerá-la, na década de 70, alguns outros países europeus seguiram os passos da descriminalização. Itália e Espanha há tempos aceitam pequenas quantidades da erva – embora a Espanha esteja abandonando a posição branda e haja projetos de lei, na Itália, no mesmo sentido. O Reino Unido acabou de anunciar que descriminalizou o uso da maconha – a partir do ano que vem, a droga será apreendida e o portador receberá apenas uma advertência verbal. Os ingleses esperam, assim, poder concentrar seus esforços na repressão de drogas mais pesadas. No ano passado, Portugal endureceu as penas para o tráfico, mas descriminalizou o usuário de qualquer droga, desde que ele seja encontrado com quantidades pequenas. Porte de drogas virou uma infração administrativa, como parar em lugar proibido. Nos últimos anos, os Estados Unidos também mudaram sua forma de lidar com as drogas. Dentro da tendência mundial de ver a questão mais como um problema de saúde do que criminal, o país, em vez de botar na cadeia, obriga o usuário a se tratar numa clínica para dependentes. “Essa idéia é completamente equivocada”, afirma o psiquiatra Dartiu Xavier, refletindo a opinião de muitos especialistas. “Primeiro porque nem todo usuário é dependente. Segundo, porque um tratamento não funciona se é compulsório – a pessoa tem que querer parar”, diz. No sistema americano, quem recusa o tratamento ou o abandona vai para a cadeia. Portanto, não é uma descriminalização. “Chamo esse sistema de ‘solidariedade autoritária’”, diz o jurista Maierovitch. O Brasil planeja adotar o mesmo modelo. Há possibilidades de uma mudança no tratamento à maconha? “No Brasil, não é fácil”, diz Maierovitch, que, enquanto era secretário nacional antidrogas do governo de Fernando Henrique Cardoso, planejou a descriminalização. “A lei hoje em vigor em Portugal foi feita em conjunto conosco, com o apoio do presidente”, afirma. A idéia é que ela fosse colocada em prática ao mesmo tempo nos dois países. Segundo Maierovitch, Fernando Henrique mudou de idéia depois. O jurista afirma que há uma enorme influência americana na política de drogas brasileira. O fato é que essa questão mais tira do que dá votos e assusta os políticos – e não só aqui no Brasil. O deputado federal Fernando Gabeira, hoje no Partido dos Trabalhadores, é um dos poucos identificados com a causa da descriminalização. “Pretendo, como um primeiro passo, tentar a legalização da maconha para uso médico”, diz. Mas suas idéias estão longe de ser unanimidade mesmo dentro do seu partido. No remoto caso de uma legalização da compra e da venda, haveria dois modelos possíveis. Um seria o monopólio estatal, com o governo plantando e fornecendo as drogas, para permitir um controle maior. A outra possibilidade seria o governo estabelecer as regras (composição química exigida, proibição para menores de idade, proibição para fumar e dirigir), cobrar impostos (que seriam altíssimos, inclusive para evitar que o preço caia muito com o fim do tráfico ilegal) e a iniciativa privada assumir o lucrativo negócio. Não há no horizonte nenhum sinal de que isso esteja para acontecer. Mas a Super apurou, em consulta ao Instituto Nacional de Propriedade Intelectual, que a Souza Cruz registrou, em 1997, a marca Marley – fica para o leitor imaginar que produto a empresa de tabaco pretende comercializar com o nome do ídolo do reggae.
Maconha: Tudo o que você quer saber sobre a droga mais consumida no mundo. [PARTE I]
Por que a maconha é proibida? Porque faz mal à saúde. Será mesmo? Então, por que o bacon não é proibido? Ou as anfetaminas? E, diga-se de passagem, nenhum mal sério à saúde foi comprovado para o uso esporádico de maconha. A guerra contra essa planta foi motivada muito mais por fatores raciais, econômicos, políticos e morais do que por argumentos científicos. E algumas dessas razões são inconfessáveis. Tem a ver com o preconceito contra árabes, chineses, mexicanos e negros, usuários freqüentes de maconha no começo do século XX. Deve muito aos interesses de indústrias poderosas dos anos 20, que vendiam tecidos sintéticos e papel e queriam se livrar de um concorrente, o cânhamo. Tem raízes também na bem-sucedida estratégia de dominação dos Estados Unidos sobre o planeta. E, é claro, guarda relação com o moralismo judaico-cristão (e principalmente protestante-puritano), que não aceita a idéia do prazer sem merecimento – pelo mesmo motivo, no passado, condenou-se a masturbação. Não é fácil falar desse assunto – admito que levei um dia inteiro para compor o parágrafo acima. O tema é tão carregado de ideologia e as pessoas têm convicções tão profundas sobre ele que qualquer convite ao debate, qualquer insinuação de que estamos lidando mal com o problema já é interpretada como “apologia às drogas” e, portanto, punível com cadeia. O fato é que, apesar da desinformação dominante, sabe-se muito sobre a maconha. Ela é cultivada há milênios e centenas de pesquisas já foram feitas sobre o assunto. O que tentei fazer foi condensar nestas páginas o conhecimento que a humanidade reuniu sobre a droga nos milênios em que convive com ela. Por que é proibido? “O corpo esmagado da menina jazia espalhado na calçada um dia depois de mergulhar do quinto andar de um prédio de apartamentos em Chicago. Todos disseram que ela tinha se suicidado, mas, na verdade, foi homicídio. O assassino foi um narcótico conhecido na América como marijuana e na história como haxixe. Usado na forma de cigarros, ele é uma novidade nos Estados Unidos e é tão perigoso quanto uma cascavel.” Começa assim a matéria “Marijuana: assassina de jovens”, publicada em 1937 na revista American Magazine. A cena nunca aconteceu. O texto era assinado por um funcionário do governo chamado Harry Anslinger. Se a maconha, hoje, é ilegal em praticamente todo o mundo, não é exagero dizer que o maior responsável foi ele. Nas primeiras décadas do século XX, a maconha era liberada, embora muita gente a visse com maus olhos. Aqui no Brasil, maconha era “coisa de negro”, fumada nos terreiros de candomblé para facilitar a incorporação e nos confins do país por agricultores depois do trabalho. Na Europa, ela era associada aos imigrantes árabes e indianos e aos incômodos intelectuais boêmios. Nos Estados Unidos, quem fumava eram os cada vez mais numerosos mexicanos – meio milhão deles cruzaram o Rio Grande entre 1915 e 1930 em busca de trabalho. Muitos não acharam. Ou seja, em boa parte do Ocidente, fumar maconha era relegado a classes marginalizadas e visto com antipatia pela classe média branca.
Pouca gente sabia, entretanto, que a mesma planta que fornecia fumo às classes baixas tinha enorme importância econômica. Dezenas de remédios – de xaropes para tosse a pílulas para dormir – continham cannabis. Quase toda a produção de papel usava como matéria-prima a fibra do cânhamo, retirada do caule do pé de maconha. A indústria de tecidos também dependia da cannabis – o tecido de cânhamo era muito difundido, especialmente para fazer cordas, velas de barco, redes de pesca e outros produtos que exigissem um material muito resistente. A Ford estava desenvolvendo combustíveis e plásticos feitos a partir do óleo da semente de maconha. As plantações de cânhamo tomavam áreas imensas na Europa e nos Estados Unidos. Em 1920, sob pressão de grupos religiosos protestantes, os Estados Unidos decretaram a proibição da produção e da comercialização de bebidas alcoólicas. Era a Lei Seca, que durou até 1933. Foi aí que Henry Anslinger surgiu na vida pública americana – reprimindo o tráfico de rum que vinha das Bahamas. Foi aí, também, que a maconha entrou na vida de muita gente – e não só dos mexicanos. “A proibição do álcool foi o estopim para o ‘boom’ da maconha”, afirma o historiador inglês Richard Davenport-Hines, especialista na história dos narcóticos, em seu livro The Pursuit of Oblivion (A busca do esquecimento, ainda sem versão para o Brasil). “Na medida em que ficou mais difícil obter bebidas alcoólicas e elas ficaram mais caras e piores, pequenos cafés que vendiam maconha começaram a proliferar”, escreveu. Anslinger foi promovido a chefe da Divisão de Controle Estrangeiro do Comitê de Proibição e sua tarefa era cuidar do contrabando de bebidas. Foi nessa época que ele percebeu o clima de antipatia contra a maconha que tomava a nação. Clima esse que só piorou com a quebra da Bolsa, em 1929, que afundou a nação numa recessão. No sul do país, corria o boato de que a droga dava força sobre-humana aos mexicanos, o que seria uma vantagem injusta na disputa pelos escassos empregos. A isso se somavam insinuações de que a droga induzia ao sexo promíscuo (muitos mexicanos talvez tivessem mais parceiros que um americano puritano médio, mas isso não tem nada a ver com a maconha) e ao crime (com a crise, a criminalidade aumentou entre os mexicanos pobres, mas a maconha é inocente disso). Baseados nesses boatos, vários Estados começaram a proibir a substância. Nessa época, a maconha virou a droga de escolha dos músicos de jazz, que afirmavam ficar mais criativos depois de fumar. Anslinger agarrou-se firme à bandeira proibicionista, batalhou para divulgar os mitos antimaconha e, em 1930, quando o governo, preocupado com a cocaína e o ópio, criou o FBN (Federal Bureau of Narcotics, um escritório nos moldes do FBI para lidar com drogas), ele articulou para chefiá-lo. De repente, de um cargo burocrático obscuro, Anslinger passou a ser o responsável pela política de drogas do país. E quanto mais substâncias fossem proibidas, mais poder ele teria. Mas é improvável que a cruzada fosse motivada apenas pela sede de poder. Outros interesses devem ter pesado. Anslinger era casado com a sobrinha de Andrew Mellon, dono da gigante petrolífera Gulf Oil e um dos principais investidores da igualmente gigante Du Pont. “A Du Pont foi uma das maiores responsáveis por orquestrar a destruição da indústria do cânhamo”, afirma o escritor Jack Herer, em seu livro The Emperor Wears No Clothes (O imperador está nu, ainda sem tradução). Nos anos 20, a empresa estava desenvolvendo vários produtos a partir do petróleo: aditivos para combustíveis, plásticos, fibras sintéticas como o náilon e processos químicos para a fabricação de papel feito de madeira. Esses produtos tinham uma coisa em comum: disputavam o mercado com o cânhamo. Seria um empurrão considerável para a nascente indústria de sintéticos se as imensas lavouras de cannabis fossem destruídas, tirando a fibra do cânhamo e o óleo da semente do mercado. “A maconha foi proibida por interesses econômicos, especialmente para abrir o mercado das fibras naturais para o náilon”, afirma o jurista Wálter Maierovitch, especialista em tráfico de entorpecentes e ex-secretário nacional antidrogas. Anslinger tinha um aliado poderoso na guerra contra a maconha: William Randolph Hearst, dono de uma imensa rede de jornais. Hearst era a pessoa mais influente dos Estados Unidos. Milionário, comandava suas empresas de um castelo monumental na Califórnia, onde recebia artistas de Hollywood para passear pelo zoológico particular ou dar braçadas na piscina coberta adornada com estátuas gregas. Foi nele que Orson Welles se inspirou para criar o protagonista do filme Cidadão Kane. Hearst sabidamente odiava mexicanos. Parte desse ódio talvez se devesse ao fato de que, durante a Revolução Mexicana de 1910, as tropas de Pancho Villa (que, aliás, faziam uso freqüente de maconha) desapropriaram uma enorme propriedade sua. Sim, Hearst era dono de terras e as usava para plantar eucaliptos e outras árvores para produzir papel. Ou seja, ele também tinha interesse em que a maconha americana fosse destruída – levando com ela a indústria de papel de cânhamo. Hearst iniciou, nos anos 30, uma intensa campanha contra a maconha. Seus jornais passaram a publicar seguidas matérias sobre a droga, às vezes afirmando que a maconha fazia os mexicanos estuprarem mulheres brancas, outras noticiando que 60% dos crimes eram cometidos sob efeito da droga (um número tirado sabe-se lá de onde). Nessa época, surgiu a história de que o fumo mata neurônios, um mito repetido até hoje. Foi Hearst que, se não inventou, ao menos popularizou o nome marijuana (ele queria uma palavra que soasse bem hispânica, para permitir a associação direta entre a droga e os mexicanos). Anslinger era presença constante nos jornais de Hearst, onde contava suas histórias de terror. A opinião pública ficou apavorada. Em 1937, Anslinger foi ao Congresso dizer que, sob o efeito da maconha, “algumas pessoas embarcam numa raiva delirante e cometem crimes violentos”. Os deputados votaram pela proibição do cultivo, da venda e do uso da cannabis, sem levar em conta as pesquisas que afirmavam que a substância era segura. Proibiu-se não apenas a droga, mas a planta. O homem simplesmente cassou o direito da espécie Cannabis sativa de existir. Anslinger também atuou internacionalmente. Criou uma rede de espiões e passou a freqüentar as reuniões da Liga das Nações, antecessora da ONU, propondo tratados cada vez mais duros para reprimir o tráfico internacional. Também começou a encontrar líderes de vários países e a levar a eles os mesmos argumentos aterrorizantes que funcionaram com os americanos. Não foi difícil convencer os governos – já na década de 20 o Brasil adotava leis federais antimaconha. A Europa também embarcou na onda proibicionista. “A proibição das drogas serve aos governos porque é uma forma de controle social das minorias”, diz o cientista político Thiago Rodrigues, pesquisador do Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre Psicoativos. Funciona assim: maconha é coisa de mexicano, mexicanos são uma classe incômoda. “Como não é possível proibir alguém de ser mexicano, proíbe-se algo que seja típico dessa etnia”, diz Thiago. Assim, é possível manter sob controle todos os mexicanos – eles estarão sempre ameaçados de cadeia. Por isso a proibição da maconha fez tanto sucesso no mundo. O governo brasileiro achou ótimo mais esse instrumento para manter os negros sob controle. Os europeus também adoraram poder enquadrar seus imigrantes. A proibição foi virando uma forma de controle internacional por parte dos Estados Unidos, especialmente depois de 1961, quando uma convenção da ONU determinou que as drogas são ruins para a saúde e o bem-estar da humanidade e, portanto, eram necessárias ações coordenadas e universais para reprimir seu uso. “Isso abriu espaço para intervenções militares americanas”, diz Maierovitch. “Virou um pretexto oportuno para que os americanos possam entrar em outros países e exercer os seus interesses econômicos.” Estava erguida uma estrutura mundial interessada em manter as drogas na ilegalidade, a maconha entre elas. Um ano depois, em 1962, o presidente John Kennedy demitiu Anslinger – depois de nada menos que 32 anos à frente do FBN. Um grupo formado para analisar os efeitos da droga concluiu que os riscos da maconha estavam sendo exagerados e que a tese de que ela levava a drogas mais pesadas era furada. Mas não veio a descriminalização. Pelo contrário. O presidente Richard Nixon endureceu mais a lei, declarou “guerra às drogas” e criou o DEA (em português, Escritório de Coação das Drogas), um órgão ainda mais poderoso que o FBN, porque, além de definir políticas, tem poder de polícia.
“Ocupe Wall Street”: por que os manifestantes escolheram o Tumblr?
Estou tentando obter uma graduação universitária. Minha média geral é 4,0 e tenho 40 mil dólares em dívidas. Não tenho tempo livre, mas aceitei um trabalho para orientar alunos. Passei o fim de semana no hospital com pneumonia. Não tenho seguro-saúde e não posso pagar a conta". Uma mulher escreveu: “Sofro de depressão crônica. Também sou dependente de drogas em recuperação. Minha medicação custa 200 dólares por mês. Minha educação custa 10 mil dólares por ano. Tenho dois empregos, trabalho como voluntária em dois lugares e faço sexo por dinheiro nos fins de semana. Tenho 23 anos”. Outra escreve: “Tenho 31 anos e sou veterana da Força Aérea dos Estados Unidos. Estou desempregada há 16 meses. Meu marido está desempregado há seis meses. Perdemos nossa casa e moramos com nossa sogra. As pessoas me agradecem pelos serviços prestados. Por que não me agradecem com um emprego?”. Duy Linh Tu, diretor de Mídia Digital da Faculdade de Jornalismo da Universidade de Colúmbia, afirmou que o Tumblr “ocupou um nicho singular”. Enquanto o Twitter permite apenas 140 caracteres e os blogs convencionais permitem apenas que o autor interaja, o Tumblr integrou ambos. Lotan também observou que o ímpeto das manifestações do Ocupe Wall Street está crescendo – e que as conversas não estão acontecendo no Twitter. "Você atinge muito mais gente com conteúdos visuais, com blogs colaborativos que contam histórias baseadas em fotos, como o Tumblr. ‘Somos os 99%’ está fazendo um trabalho fantástico ao envolver um número cada vez maior de pessoas”. Kalev Leetaru, professor-assistente de análise de textos e mídias digitais da Universidade de Illinois Urbana-Champaign, observou que muitas pessoas estão contando as mesmas histórias de dificuldades econômicas. Isso pode ajudar a transformar a narrativa popular, porque quem posta no site vê outras pessoas com as quais se identificam. “As reportagens iniciais os descreviam apenas como jovens universitários e hippies sujos”, afirma Leetaru. Mas essa visão disseminada pela grande mídia (como o New York Times) começou a desmoronar quando a página no Tumblr passou a ser “reblogada”. O fato também se relaciona ao controle das mensagens, algo que as corporações fazem muito bem. “Movimentos populares têm historicamente sofrido muito com isso”, evoca Leetaru. A disseminação da mensagem tem sido fundamental para ampliar o apoio aos movimentos e conquistar mais manifestantes. Além do Tumblr, o Twitter e o Facebook também oferecem potentes ferramentas de organização, ajudando a impulsionar manifestações em várias cidades dos Estados Unidos. Isso chamou a atenção da grande mídia, ampliando a consciência popular sobre os protestos, explica Leetaru. Seu recente trabalho científico analisou a cobertura da mídia e previu manifestações de desobediência civil. Mas o pesquisador diz não ter certeza de que o número de participantes crescerá neste caso. Quando os protestos no Egito começaram a ganhar forma, não havia um número tão grande de tuítes pouco antes da queda do governo – só depois eles dispararam, assim como as inserções na Wikipedia. No entanto, Leetaru acrescenta que o controle da mensagem, com o apoio das mídias sociais, ajudou a colocar a maré contra o governo de Hosni Mubarak. Inicialmente, o ex-presidente egípcio recorreu à propaganda para retratar os manifestantes na Praça Tahrir como agentes de forças estrangeiras. Linh Tu afirma que o uso de mídias sociais com Twitter ou Tumblr amplia a conscientização do público sobre movimentos de protesto mais rapidamente do que no passado, mas também pode acelerar sua queda. Quanto mais rápido surgem, mais rápido desaparecem. E como não há função de armazenamento de arquivos no Tumblr ou Twitter, um movimento que é popular esta semana corre o risco de se esvaziar na outra e ser esquecido. Contudo, se a primavera árabe serve como referência, o movimento nascido nos Estados Unidos parece estar só começando.
(Fonte: Discovery Notícias)
Céticos pagam 1 milhão a médiuns que comprovarem seus poderes paranormais.
A chamada “leitura fria” é um conjunto de técnicas utilizadas para extrair informações pessoais, e geralmente se vale de perguntas vagas e pontuais. Depois de fazer as perguntas, repetem as respostas para convencer a pessoa de que têm acesso sobrenatural àquela informação. Outra técnica de mentalização camada “leitura quente” recorre à obtenção de informações antecipadamente, seja na internet ou, em alguns casos, por meiod de um detetive. James Randi expôs essas técnicas “paranormais” durante anos, inclusive durante uma investigação que conduziu em 1986 para desmascarar o curandeiro Peter Popoff, que apresentava um programa de TV e sabia detalhes da vida do público, inclusive doenças e endereços. Randi demonstrou que Popoff estava, na verdade, obtendo essas informações aparentemente paranormais (ou reveladas por Deus) com sua esposa, que pesquisava a vida de algumas pessoas do auditório e as transmitia por um rádio de ondas curtas e um ponto eletrônico. Os médiuns têm motivos para tomar precauções ao testar suas habilidades. Os registros de mediunidade são pouco convincentes. Ao contrário do que se pensa, não há um único caso documentado de pessoa desaparecida que tenha sido encontrada graças a informações de médiuns. O fato de médiuns terem falhado na busca por pessoas desaparecidas não pode ser negado. Incontáveis casos de desaparecimentos, como os de Natalee Holloway, Laci Peterson, Madeleine McCann, Chandra Levy, Sandra Cantu, Caylee Anthony, Elizabeth Smart, Jaycee Dugard, etc, ainda não foram solucionados, foram desvendados acidentalmente ou no curso da investigação policial. Em cada um desses casos, centenas de médiuns deram informações sobre a localização das pessoas, e todos eles erraram. A estudante de enfermagem do Tennessee, Holly Bobo, por exemplo, desapareceu por mais de quatro meses, apesar dos palpites de centenas de médiuns do país. Um deles chegou até mesmo a prever que ela seria encontrada viva poucos dias após seu desaparecimento. Infelizmente, errou de novo. No começo deste ano, uma médium afirmou à polícia do Texas que várias crianças teriam sido mortas em uma fazenda, enviando dezenas de policiais para o local. Ela também estava errada. Claro que a incapacidade de encontrarem desaparecidos não significa que essas pessoas não possuam habilidades psíquicas. É importante manter a mente aberta, mas os poderes ditos paranormais precisam ser demonstrados de forma objetiva, científica, sob condições que evitem enganações. O desafio de um milhão de dólares foi lançado há muitos anos. Alguns médiuns disseram que esse dinheiro não existe (como parte de um especial que foi ao ar na sexta passada, a ABC News conferiu a existência e a disponibilidade do dinheiro, que está sob a custódia de terceiros). Outros sugeriram que os médiuns não devem usar seus poderes para ganho pessoal (não cobrando pelas aparições e workshops realizados), mas que o médium vencedor deveria doar seu milhão para a caridade. Será que algum médium famoso aceitará o desafio de Randi? A possibilidade de anunciar a comprovação de suas habilidades só os tornaria mais conhecidos (sem contar a satisfação que teriam ao comprovar publicamente que os céticos estavam errados). Independentemente de as informações fornecidas serem exatas ou não, não há como os céticos denegrirem um poder paranormal genuíno. Se os médiuns têm os poderes que afirmam ter, não há nada a perder, apenas um milhão de dólares a ganhar.
(Fonte: Discovery Notícias)
terça-feira, outubro 25, 2011
Einstein caiu do cavalo?
Até outro dia, a velocidade da luz era o limite. Nada no Universo poderia ir mais rápido que 1,08 bilhão de km/h. Agora não, pelo menos para alguns cientistas do Cern, um dos melhores centros de pesquisa do mundo. No dia 22 de setembro, eles anunciaram que a luz pode ter perdido o trono. Tinham mandado um feixe de neutrinos do laboratório do Cern, na Suíça, para outro, na Itália. Foi uma viagem de 732 quilômetros por baixo da terra, o que não é problema: neutrinos atravessam pedra do mesmo jeito que uma bala de revólver passa por neblina. Os neutrinos foram de Genebra até Roma em 2,43 milésimos de segundo. Chegaram 60 bilionésimos de segundo antes do que se tivessem viajado àvelocidade da luz. Mas... e daí? Qual é o problema de a luz ter perdido a “liderança” do ranking de coisas mais rápidas? Tem um baita problema. A velocidade da luz não é como a velocidade de qualquer outra coisa. Ela é a base da Teoria da Relatividade, que em última instância explica como o mundo funciona. Vejamos então como funciona o mundo. Einstein formulou a Relatividade em 1905 porque estava diante de um desafio à lógica. Os físicos do século 19 tinham verificado um fenômeno além da imaginação: raios de luz pareciam fugir de quem se atrevesse a persegui-los. Se você ligar uma lanterna, estará lançando um feixe de luz a 1,08 bilhão de km/h. Com isso em mente, imagine outro cenário: você com a lanterna de um lado e o Sebastian Vettel com o F-1 dele do outro. Lanterna e Vettel alinhados no grid para uma corrida numa reta sem fim. E é dada a largada. Vettel chega a 300 km/h numa piscada. Pouco para os 1,08 bilhão de km/h da luz que sai da sua lanterna. Mas vamos dar uma colher de chá e dizer que, aqui, o Red Bull do rapaz chegue a 1 bilhão de km/h. Sebastian acelera, acelera e vê o velocímetro marcar 1,0799 km/h. Ele está quase emparelhado com o raio de luz. Então resolve dar uma olhadinha para o lado só para conferir. O que o alemão enxerga? Pelo senso comum, ele veria o raio quase parado. Mas não. Vettel observaria a luz rasgando o espaço a 1,08 bilhão de km/h. Como se sua Red Bull estivesse parada... Não faz sentido. Mas é a verdade. Os físicos do século 19 sabiam disso. E os estudantes mais aplicados também. Era o caso de AlbertEinstein. Aos 16 anos, em 1895, ele se imaginou na mesma posição em que Vettel estava neste texto – como alguém disputando um racha contra um raio de luz. Einstein sabia que o raio se comportaria como se estivesse fugindo. Mas por quê? Por quê? Dez anos depois ele encontrou a explicação: quanto mais rápido você corre, mais devagar o tempo passa dentro do seu corpo – e mais rápido fora do seu corpo. Quando se aproximasse da velocidade daluz, você veria o mundo à sua volta acontecer em fast forward, em câmera acelerada. Isso, grosso modo, ajuda a explicar por que a luz sempre parece estar a 1,08 bilhão de km/h para o nosso Vettel. Mas por que, então, nem o Vettel imaginário tem como ultrapassar a velocidade da luz? Por causa daquela regra, a de que quanto mais rápido você corre, mais lentamente o tempo passa. Os cálculos deEinstein sobre a desaceleração do tempo mostram que, se você chegar à velocidade da luz, o tempo deixa de passar. Zera. É como se o tempo fosse a gasolina da velocidade. E essa gasolina acaba no momento em que você atinge 1,08 bilhão de km/h. Ponto. Mas e os neutrinos? Segundo as medições do Cern eles conseguiram o que o nosso Vettel jamais conseguiria: ultrapassaram a velocidade da luz.Einstein estava errado, então? Dificilmente. A Relatividade tem quase 100 anos de comprovações experimentais nas costas. É mais fácil que errado esteja o pessoal do Cern mesmo (outros cientistas vão repetir o experimento). Mas e se a comprovação vier? Tudo bem: uma das possibilidades é que isso prove outra teoria: a de que existem mais dimensões além das 3 que a gente conhece. Os neutrinos poderiam ter pego um “atalho” numa delas – coisa que permitiria chegar à Itália mais rápido que um raio de luz, mas sem ultrapassar a velocidade da luz. Isso não violaria nenhum princípio da Relatividade – da mesma forma que as teorias de Einstein não violaram as de Newton, só aprimoraram. É assim que a ciência anda. Seja como for, uma comprovação da supervelocidade dos neutrinos traria um problema novo e inesperado para a ciência. Um desafio à lógica tão grande quanto aquele que inspirou o Einsteinadolescente. Um desafio que talvez só teremos como resolver com a ajuda de um novo Einstein. As vagas estão abertas.
domingo, outubro 23, 2011
A cidade e a negação do outro.
Historicamente as cidades nunca foram locais igualmente acolhedores a todos. Elas nascem justamente do encontro e identificação entre um grupo de “iguais” interessados em se enriquecer e se defender da presença indesejada do “outro”. Os outros na cidade grega clássica eram, por exemplo, os estrangeiros e os prisioneiros de guerra. Na cidade medieval europeia, doentes como os leprosos eram os detentores dessa alcunha de “indesejáveis”. Atualmente, os imigrantes latinos nos Estados Unidos, os árabes e os negros africanos na Europa Ocidental e os nordestinos, homossexuais, negros, prostitutas, usuários de drogas, portadores de necessidades especiais, mendigos e desempregados no Brasil, são aqueles mais comumente considerados como os outros. A principal mudança em relação ao passado é que, mais do que questões de raça, credo, saúde ou nacionalidade, no atual período de globalização neoliberal tem sido a pobreza o principal atributo de diferenciação. Muitas vezes a negação do outro não se dá apenas no âmbito das falas e das ações, mas se materializa em formas urbanas voltadas a separar e afastar os indesejáveis. Um exemplo muito presente na arquitetura das casas e apartamentos brasileiros são as dependências de empregada e as entradas e elevadores de serviço. Tais formas têm a função de demarcar os espaços de circulação e presença dos empregados e de lhes assinalar sua condição de outro. Mais do que o interior das casas, porém, grandes complexos urbanísticos têm sido construídos como resposta a esse desejo de segregação. Os condomínios fechados, por exemplo, sejam horizontais ou verticais, têm no argumento da exclusividade o seu principal apelo publicitário. O ideal de felicidade vendido pelos agentes imobiliários passa pelo conceito de que é bom aquilo que pode ser usufruído de modo individual ou no máximo por um grupo de “semelhantes”. Muitas campanhas reforçam, por exemplo, o privilégio de se ter áreas verdes e praças de lazer exclusivas e sem a incômoda presença de “estranhos”. Ao invés de ter que lidar com o outro em uma praça pública de esportes, prefere-se o privilégio de se ter um campo de futebol particular, mesmo que ele passe a maior parte do tempo subutilizado por falta de jogadores. Talvez seja, porém, um pouco demasiado dizer que os condomínios sejam totalmente intolerantes aos outros. Algumas dessas pessoas podem se tornar “desejáveis” quando úteis para o cumprimento de serviços pouco nobres, como a limpeza ou a vigilância. Sem faxineiros, empregadas domésticas e porteiros, funções geralmente delegadas a nordestinos, negros e pobres, seria inviável a existência dos condomínios fechados nos moldes em que foram pensados. Contudo, basta um furto dentro de um condomínio para que, de desejáveis, essas pessoas retornem à condição de indesejáveis. Na ocorrência de um crime, os primeiros suspeitos são sempre os outros, e nunca, por exemplo, um jovem morador do condomínio que faz pequenos furtos internos para manter seu vício em drogas. A mesma lógica de criminalização do outro está presente também nas recentes estratégias de monitoramento das cidades através de câmeras de vigilância. Os suspeitos ali apontados são na maior parte das vezes aqueles que se enquadram no estereótipo do “marginal”, ou seja, cujos traços físicos, modo de vestir e de se comportar não estão dentro dos modelos considerados “normais”. As câmeras também são usadas como instrumentos de repulsa dos indesejáveis, como ocorre em São Paulo , onde elas foram instaladas no entorno do Jóquei Clube com o objetivo de inibir a presença de prostitutas. O uso de instrumentos de vigilância também tem sido cada vez mais freqüente em escolas brasileiras, especialmente nas privadas, muitas vezes com o curioso argumento de que são estratégias contra o chamado bullying : um tipo de violência em que um grupo de estudantes promove humilhações e violência psicológica a colegas que não se enquadram nos padrões de estética e comportamento considerados normais. O bullying é uma violência de não aceitação da diferença, ou seja, de intolerância ao outro. As câmeras, porém, por serem instrumentos que primam pela homogeneização de comportamentos, surtirão efeito contrário ao esperado, pois reforçarão a intransigência a tudo que for excêntrico. Ainda a propósito das escolas privadas, deve-se destacar que muitas delas têm servido como verdadeiros centros de formação para a não-aceitação da diferença. Desde cedo, as crianças que as frequentam são expostas a ambientes ultra-controlados e ultra-exclusivos. Na cidade de Campinas (São Paulo), por exemplo, o excesso de proteção fica claro no caso de uma escola que escolheu o interior de um shopping-center como local para a construção de uma de suas filiais. Não satisfeita, porém, apenas com a segurança fornecida pelo estabelecimento comercial, a direção da escola resolveu instalar câmeras de vigilância nos corredores do colégio e, até mesmo, no interior das salas de aula. O excesso de seletividade é evidente também graças aos altos valores das mensalidades praticados, o que faz com que apenas crianças de famílias com certas condições financeiras possam frequentar esses locais. Assim, ao invés de educarem as crianças a conviverem na diferença, essas instituições privadas inculcam, desde cedo, naquelas pequenas mentes, ideias de seletividade e de segregação. Além disso, enquanto a porcentagem de negros dentre os alunos de escolas particulares está evidentemente muito abaixo da média nacional, a porcentagem de negros em serviços de vigilância e limpeza desses estabelecimentos é certamente bem mais elevada. A intolerância ao outro se faz ainda mais evidente em formas urbanas que são explicitamente construídas para impedir a presença dos indesejáveis. Em diversos lugares da cidade de Campinas podem ser vistos objetos pontiagudos cuja função é a de evitar que pessoas “estranhas” se sentem e ali permaneçam. Tais arquiteturas são muito comuns em frente a estabelecimentos comerciais (figura 1), mas podem também ser encontradas em lugares mais inusitados, como nas escadarias da Catedral de Campinas.

Arquitetura anti-indesejáveis no comércio do centro de Campinas, 2009. Foto do autor.

Espetos colocados nas escadas da Catedral Metropolitana de Campinas, 2007.
Autor: Tiago Macambira.
Até mesmo a prefeitura da cidade, que deveria ser a principal representante do interesse público, tem o seu exemplar de arquitetura anti-indesejáveis. Na reforma de um viaduto em um bairro nobre, pedras pontiagudas foram instaladas com o intuito de afugentar moradores de rua e pedintes (figura 3). Essas são, obviamente, políticas que combatem o pobre, como ser indesejável na paisagem, e não exatamente a pobreza.

Arquitetura anti-indesejáveis sob viaduto de Campinas 2007. Autor: Tiago Macambira.
Esse tipo de arquitetura voltada à expulsão dos indesejáveis não é, contudo, exclusividade de Campinas, mesmo que nessa cidade a sua concentração seja incrivelmente alta. As duas fotos a seguir, a primeira de uma calçada de Londres e a segunda da entrada da Faculdade de Direito da Sorbonne em Paris, mostram que essas formas arquitetônicas têm sido presentes em paisagens as mais diversas.

Calçada de Londres com arquitetura anti-indesejáveis, 2009. Foto do autor.

Arquitetura anti-indesejáveis na entrada da Faculdade de Direito da Sorbonne,
Paris, 2010. Foto do autor.
É lamentável constatar como alguns arquitetos direcionam sua imensa capacidade criativa em projetos como esses. Há, todavia, casos ainda mais engenhosos como o que ocorre na região da “Cracolândia” em São Paulo onde, para afastar usuários de craque, um equipamento gerador de “chuva artificial” foi instalado sob a marquise de um prédio. Outro exemplo inusitado pode ser encontrado em algumas cidades inglesas que instalaram aparelhos emissores de ruídos ultra-agudos imperceptíveis para os maiores de 25 anos de idade, mas extremamente incômodo para os jovens. Contudo, o mais curioso deles é certamente o da também inglesa Mansfield: luzes róseas, como aquelas utilizadas por dermatologistas, foram colocadas em algumas ruas da cidade com o objetivo de realçar as espinhas dos adolescentes arruaceiros e com isso desestimular a presença dos mesmos naqueles locais. Há, assim, uma deliberada adaptação das cidades para que elas se tornem receptivas para alguns e repulsivas para os indesejáveis. Mais do que uma questão estética, porém, essas arquiteturas carregam uma profunda carga simbólica. Quando uma prefeitura chega ao ponto de construir formas urbanas para expulsar os pobres, ela revela que suas preocupações não são coletivas, mas direcionadas a servir aos interesses de uma pequena classe hegemônica. Por fim, é importante que não nos esqueçamos da forma espacial que mais claramente revela o objetivo de negar e segregar os indesejáveis: a prisão. Independente do local onde tenham sido construídas, as prisões são sempre majoritariamente povoadas pelos outros, o que no caso brasileiro são, sobretudo, os pobres. Além disso, há muito, a preocupação da Justiça brasileira não é a de recuperar seus presidiários e trazer esses outros para perto dos iguais, mas sim mantê-los o maior tempo possível isolados e na eterna condição de outro. Assim como os espetos anti-indesejáveis, as prisões não resolvem os problemas estruturais e profundos da sociedade, mas se contentam em promover uma “limpeza da paisagem”, tirando da vista dos iguais a incômoda presença dos “diferentes”. Pode se, então, concluir que a cidade de hoje, mais do que aquela do passado, nega ao outro a condição de cidadão, negação esta que tem na pobreza o seu principal argumento. E, como pôde ser visto, essa intransigência não se restringe aos atos, pois se concretiza em formas urbanas repulsivas e segregadoras. Com a existência dessas formas, as cidades passam a criar as condições para que a intolerância seja não só mantida como também reproduzida. Confirmando-se essa tendência, chegará certamente o momento em que as cidades de poucos “iguais” se tornarão insuportáveis para uma grande maioria de “outros”.
Mendicância chique.
Nada mais familiar aos brasileiros do que as esquinas cheias de gente pedindo esmola. Entre os pedintes há os que se apresentam em cadeiras de rodas ou muletas. Há os velhos, os barbudos, os bêbados e as mulheres com bebês no colo. Há as crianças, sobretudo, muitas crianças. De uns tempos para cá elas se especializaram em fazer malabarismo na frente dos carros. Algumas são realmente competentes na arte de manter no ar três, quatro ou cinco bolinhas. Demonstram que tiveram sagacidade e persistência para aprender, o que pode ser sinal de talento também para outras coisas na vida. Outras vão mal, constrangedoramente mal. Fazem papel de pequenos palhaços involuntários no show das esquinas. Todos têm em comum os andrajos com que se vestem e a fuligem da pobreza que lhes cola à pele, sinais do desvio social em que estão metidos.
Todos? Não. Há uma exceção: uma tribo de mendigos chiques que sazonalmente invade as ruas. Vestem roupa de butique. Não raro, terminado o expediente nas esquinas, dirigem-se ao carro que estacionaram nos arredores – carro bom, de modelo recente. O compromisso seguinte será uma compra no shopping center ou, se estiver na época, uma sessão da Fashion Week. A noite terá o restaurante da moda e a balada. São os novos alunos das faculdades. Nesta época, de divulgação dos resultados dos vestibulares, eles se postam nos cruzamentos, monitorados pelos "veteranos", para pedir dinheiro. Não dizem que estão pedindo esmolas. Dizem que é para arrecadar fundos para a festa dos calouros, para a cervejada, algo nessa linha. O.k., assim é mais elegante para com a clientela, ainda que cruelmente deselegante com quem pede para comer mesmo.
Tanto melhor, dirão alguns, que o trote dos calouros se limite a pedir dinheiro. Há versões piores, que vão da violência física a situações de humilhação moral muito mais perversas do que esmolar. Quatro anos atrás, em São Paulo, um calouro de medicina morreu na piscina onde, sem saber nadar, fora forçado a mergulhar. Há algo de deprimente, no entanto, nessa gente bem-posta, bem-vestida e, em regra, claro, branca – a cor de pele da esmagadora maioria dos que entram nas faculdades – reunida nas esquinas para mendigar. Para começar, os calouros pecam contra os princípios da sadia concorrência. Drenam os trocados que, de outra forma, poderiam destinar-se ao andrajoso de pele escura da esquina seguinte. Mas esse é um aspecto secundário da questão. Importante é o significado que o exercício da mendicância chique assume no plano mais simbólico.
Outrora, uma das cenas favoritas, nos desenhos ou nas gravuras que exploravam a estética do grotesco, era o festim dos mendigos. Em torno de uma mesa farta, reuniam-se os maltrapilhos, os sujos, os desdentados. Considerava-se muito divertida a inversão dos papéis. Na mesa dos ricos, por vezes até provida de finas toalhas e cristais, os pobres se esbaldavam. No caso da mendicância dos calouros, observa-se a mesma inversão de papéis, mas em sentido contrário: são os ricos que imitam os pobres. É a velha história do príncipe e do mendigo, na faceta não do mendigo reinando no palácio, mas do príncipe esmolando pela rua.
Quando o pobre imita o rico, o resultado pode ser cômico ou trágico, dependendo do talento de quem imita e do espírito de quem observa. Quando o rico imita o pobre, o resultado é humor negro, o mais puro e desabrido humor negro, ainda mais no Brasil. A caricata versão do mendigo de camiseta de grife é o Brasil achincalhando a si mesmo. É a encenação, na avenida, para usar da linguagem carnavalesca, do enredo da imitação da miséria, campeão indiscutível, num país já suficientemente aquinhoado de miséria, no quesito escárnio. A figura do pedinte que acaba de ingressar no círculo do privilégio que é a universidade é um monumento ao contra-senso.
Ainda não chegamos, porém, ao pior efeito da mendicância chique. O pior, porque melancolicamente ilustrativo de uma sociedade fragmentada, é a inter-relação que se estabelece entre pedintes e doadores, esmoleiros e esmoleres. Há uma relação de cumplicidade. Com o mendigo de verdade, a reação é de medo, de asco ou, mesmo quando há simpatia, de distância e instintivo alerta. Os sentidos põem-se em guarda. Todo cuidado é pouco. Com o falso mendigo representado pelo calouro, relax, ele é um dos nossos. São os nossos meninos. As nossas meninas. Ah, essas nossas crianças e suas travessuras! Não são como aquelas outras, assustadores seres de um mundo que não conhecemos senão por raros vislumbres através da janela do automóvel. Pode-se até não dar esmola alguma, mas sai-se com a alma leve. Foi como encontrar um amigo, como rever-se na juventude. No caso do mendigo de verdade, pode-se até dar a esmola, mas a alma sai pesada de temores. O contraste entre as duas situações magnifica, nas esquinas, o sulco que, além de dividir no plano objetivo a sociedade brasileira, se prolonga insidiosamente para dentro de cada um de nós.
Todos? Não. Há uma exceção: uma tribo de mendigos chiques que sazonalmente invade as ruas. Vestem roupa de butique. Não raro, terminado o expediente nas esquinas, dirigem-se ao carro que estacionaram nos arredores – carro bom, de modelo recente. O compromisso seguinte será uma compra no shopping center ou, se estiver na época, uma sessão da Fashion Week. A noite terá o restaurante da moda e a balada. São os novos alunos das faculdades. Nesta época, de divulgação dos resultados dos vestibulares, eles se postam nos cruzamentos, monitorados pelos "veteranos", para pedir dinheiro. Não dizem que estão pedindo esmolas. Dizem que é para arrecadar fundos para a festa dos calouros, para a cervejada, algo nessa linha. O.k., assim é mais elegante para com a clientela, ainda que cruelmente deselegante com quem pede para comer mesmo.
Tanto melhor, dirão alguns, que o trote dos calouros se limite a pedir dinheiro. Há versões piores, que vão da violência física a situações de humilhação moral muito mais perversas do que esmolar. Quatro anos atrás, em São Paulo, um calouro de medicina morreu na piscina onde, sem saber nadar, fora forçado a mergulhar. Há algo de deprimente, no entanto, nessa gente bem-posta, bem-vestida e, em regra, claro, branca – a cor de pele da esmagadora maioria dos que entram nas faculdades – reunida nas esquinas para mendigar. Para começar, os calouros pecam contra os princípios da sadia concorrência. Drenam os trocados que, de outra forma, poderiam destinar-se ao andrajoso de pele escura da esquina seguinte. Mas esse é um aspecto secundário da questão. Importante é o significado que o exercício da mendicância chique assume no plano mais simbólico.
Outrora, uma das cenas favoritas, nos desenhos ou nas gravuras que exploravam a estética do grotesco, era o festim dos mendigos. Em torno de uma mesa farta, reuniam-se os maltrapilhos, os sujos, os desdentados. Considerava-se muito divertida a inversão dos papéis. Na mesa dos ricos, por vezes até provida de finas toalhas e cristais, os pobres se esbaldavam. No caso da mendicância dos calouros, observa-se a mesma inversão de papéis, mas em sentido contrário: são os ricos que imitam os pobres. É a velha história do príncipe e do mendigo, na faceta não do mendigo reinando no palácio, mas do príncipe esmolando pela rua.
Quando o pobre imita o rico, o resultado pode ser cômico ou trágico, dependendo do talento de quem imita e do espírito de quem observa. Quando o rico imita o pobre, o resultado é humor negro, o mais puro e desabrido humor negro, ainda mais no Brasil. A caricata versão do mendigo de camiseta de grife é o Brasil achincalhando a si mesmo. É a encenação, na avenida, para usar da linguagem carnavalesca, do enredo da imitação da miséria, campeão indiscutível, num país já suficientemente aquinhoado de miséria, no quesito escárnio. A figura do pedinte que acaba de ingressar no círculo do privilégio que é a universidade é um monumento ao contra-senso.
Ainda não chegamos, porém, ao pior efeito da mendicância chique. O pior, porque melancolicamente ilustrativo de uma sociedade fragmentada, é a inter-relação que se estabelece entre pedintes e doadores, esmoleiros e esmoleres. Há uma relação de cumplicidade. Com o mendigo de verdade, a reação é de medo, de asco ou, mesmo quando há simpatia, de distância e instintivo alerta. Os sentidos põem-se em guarda. Todo cuidado é pouco. Com o falso mendigo representado pelo calouro, relax, ele é um dos nossos. São os nossos meninos. As nossas meninas. Ah, essas nossas crianças e suas travessuras! Não são como aquelas outras, assustadores seres de um mundo que não conhecemos senão por raros vislumbres através da janela do automóvel. Pode-se até não dar esmola alguma, mas sai-se com a alma leve. Foi como encontrar um amigo, como rever-se na juventude. No caso do mendigo de verdade, pode-se até dar a esmola, mas a alma sai pesada de temores. O contraste entre as duas situações magnifica, nas esquinas, o sulco que, além de dividir no plano objetivo a sociedade brasileira, se prolonga insidiosamente para dentro de cada um de nós.
sexta-feira, outubro 21, 2011
Não vale tudo na Internet.
“Serão punidos, na forma desta Lei, os crimes resultantes de discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional.” Os brasileiros já deveriam conhecer essa lei. Ela e outras equivalentes estão expressas em plaquetas coladas nas paredes de elevadores, teatros, bares e restaurantes. Valem na rua, na praia... e até na internet. Mas, na semana passada, centenas de pessoas parecem ter esquecido que o mundo virtual está suscetível às regras de civilidade da vida lá fora. No domingo, o Twitter, rede social de troca de mensagens curtas com mais de 10 milhões de usuários brasileiros, serviu para uma vergonhosa enxurrada de textos de cidadãos do eixo Sul-Sudeste com manifestações de intolerância contra pessoas de origem nordestina. O estopim: a eleição da candidata do PT, Dilma Rousseff, ao cargo de presidente da República, com o apoio maciço do Nordeste. Em meio às centenas de mensagens agressivas, a estudante de Direito Mayara Petruso chamou a atenção pelo que publicou no Twitter: “Nordestino não é gente. Faça um favor a Sp, mate um nordestino afogado!”. Foram apenas 71 toques. Ela levou poucos segundos para digitar e apertar “enter”, no conforto seguro de seu computador. Mas deverá arcar com as consequências do ato por muitos anos. A Ordem dos Advogados do Brasil em Pernambuco (OAB-PE) entrou com uma notícia-crime contra Mayara. Ela pode ser acusada de dois crimes, segundo Henrique Mariano, presidente da OAB-PE. O primeiro, de discriminação em meio de comunicação, prevê pena de dois a cinco anos de reclusão e multa, sem direito a fiança. O segundo é de incitação ao ato criminoso (no caso, homicídio), com pena de três a seis meses de cadeia mais uma multa. Na quarta-feira, o escritório de advocacia em que Mayara estagiava soltou uma nota para a imprensa comunicando a demissão da estudante e expressando indignação pela atitude dela. Mayara não respondeu às tentativas de contato da reportagem. Sua situação é complicada. Vários advogados, procurados por ÉPOCA, tiveram dificuldade para elaborar uma linha de defesa. Mayara não está sozinha. O site Diga Não à Xenofobia! denunciou 110 mensagens de ódio aos nordestinos e apoio a Mayara postadas por outras pessoas. Um grupo de universitários fundou em abril o movimento São Paulo para os Paulistas, que pretende discutir a questão da migração e a suposta subvalorização da cultura do Estado diante da migração de outras regiões do país. O manifesto postado na internet pelo grupo já tem 1.400 assinaturas. Seu texto afirma que os nordestinos aproveitaram as manifestações de ódio para se “fazerem de vítima”. É o que diz a atendente de suporte técnico Fabiana Pereira, de 35 anos, uma das articuladoras do movimento. “Acho que não estão sendo debatidas as causas da revolta dela (Mayara). Não que justifique. Mas o fato é que São Paulo sustenta o Bolsa Família. São Paulo sustenta e eles (nordestinos) decidem quem vai nos governar”, disse ao portal Terra. Parte da explosão de ódio pode ser produto do ambiente onde essas pessoas vivem. Segundo José Roberto Leite, psicoterapeuta da Universidade Federal de São Paulo, os agressores são pessoas condicionadas ao comportamento social de sua família, de amigos e da escola. “É provável que eles tenham esse tipo de conversa com pessoas próximas e achem normal.” Mas a expressão pública da raiva seria algo patológico. “Mostra uma mistura de agressividade incontida com impulsividade inconsequente. Essas pessoas precisam ser responsabilizadas pelo que fazem.” Por causa de manifestações como essas, Janice Ascari, procuradora regional da República em São Paulo, incluiu o nome de Mayara numa lista com dezenas de outros usuários do Twitter que publicaram mensagens preconceituosas. “É um absurdo e incompatível com os preceitos da Constituição”, diz. Eles podem ter a mesma punição que Mayara. Assim como outras pessoas que continuam publicando mensagens de ódio e preconceito contra nordestinos na internet. E nordestinos que, para reagir, publicam frases de ódio regional. A tentativa de punir a intolerância em massa no Twitter pode marcar uma reviravolta na internet brasileira. Contribui para o fim da ilusão de que você pode publicar o que bem entender, prejudicando outras pessoas, e ficar impune, protegido pelo anonimato ou pela distância do contato virtual. “Punir todos os envolvidos é impossível”, diz Mariano, da OAB. “Mas estamos empenhados em punir alguns com vigor. É uma medida exemplar para educar a sociedade virtual.” Se funcionar, levará a um amadurecimento dos usuários de redes sociais. “A pessoa acha que está protegida, mas é o mesmo que gritar em praça pública”, diz a procuradora Janice. “Não existe impunidade na internet."
Eles adoram aparecer.
Não há picadas de agulha nem pílulas coloridas. O barato do momento não envolve aditivos químicos, mas pode causar dependência. Seduz homens e mulheres de várias idades e é acionado pelo clique de um flash ou pela luzinha vermelha de uma câmera de vídeo. "Eu gosto de ser vista e admirada, sim. Não digo que é uma coisa sexual, mas é um prazer enorme. É mais que uma sensação de poder", diz a musa do Carnaval carioca, Luma de Oliveira, uma das maiores especialistas brasileiras no assunto. Desde que o artista plástico Andy Warhol previu, na década de 60, que "um dia todo mundo será mundialmente famoso por 15 minutos", cada vez mais pessoas passaram a buscar seus 900 segundos de glória. Para estudiosos da sociedade, o mundo nunca foi tão vaidoso. "Se o outro não o reconhece, você não existe. A medida de seu valor não é o que você é, mas o que os outros acham de você", considera a antropóloga Mirian Goldenberg, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Nesse contexto, tornar-se uma celebridade significa ascensão a um "nível superior". O famoso, automaticamente, passa a ser reconhecido como alguém especial. Esse é um paradigma que já se disseminou. Nas turmas de adolescentes, por exemplo, hoje interessa menos ser "a mais bonita" ou "a mais inteligente" do que ser "a popular". A garota popular é a que tem mais amigos, a que recebe mais convites para festas. E popularidade é, em certa medida, fama. Celebridades, na definição do escritor americano Daniel Boorstin, são hoje "pessoas famosas por ser famosas". Há vários caminhos para atingir essa condição. Alguns conseguem isso porque são ricos, outros porque exploram um belo corpo. Existem hoje agências especializadas em administrar o comportamento de pessoas que simplesmente querem ser famosas, como profissionais liberais e empresários.


quinta-feira, outubro 20, 2011
Uma sociedade sob as rodas.
Dados do Ministério da Saúde de 2003, divulgados num estudo da Fundação Seade, indicam que a taxa de mortalidade por atropelamento no Brasil era de 5,6 óbitos por 100 mil habitantes, quase três vezes mais do que nos Estados Unidos, Inglaterra e Canadá. São países mais adaptados, regulamentados e punitivos no que se refere ao uso violento de veículos. A taxa média relativa à mortalidade masculina em atropelamentos no Brasil mais que dobrava: 9 por 100 mil. Em vários Estados a taxa subia para 12 por 100 mil. Quanto às mulheres, a taxa é de 5 óbitos por 100 mil habitantes. A legislação mais realista e dura, de 1997, e o novo Código Nacional de Trânsito, de 1998, produziram um declínio significativo na mortalidade por atropelamento. Em São Paulo, essas ocorrências caíram pela metade, entre 1996 e 2005, de 12 mortes por 100 mil habitantes para 5,1 mortes por 100 mil. O estudo mostra também que a curva estatística das mortes por atropelamento cresce regularmente até os 40 anos de idade das vítimas, estabiliza nesse nível até os 55 anos e volta a crescer, verticalmente, daí em diante, para homens e mulheres. Idosos são as grandes vítimas de atropelamentos, que constituem também a terceira causa da morte de crianças. No caso dos idosos, as hipóteses mais prováveis para maior exposição à morte por atropelamento são as notórias: diminuição da visão, da audição e da capacidade motora. Nessa perspectiva, corremos o sério risco de concluir que a culpa é da vítima. A maior exposição de crianças e idosos ao risco de morte por atropelamento sugere, na verdade, que esta sociedade não está preparada para assegurar lugar e vida a multidões de desvalidos por idade. É velha e infeliz característica da sociedade brasileira considerar cidadãos unicamente os que estão em idade produtiva, o chamado vigor da idade. Os semáforos abrem para pedestres que podem atravessar a rua na velocidade conveniente para o carro. As faixas de pedestres não servem para protegê-los. O único verdadeiro cidadão deste país é o automóvel, cheio de direitos. Aqui, o carro desempenha praticamente a mesma função que o revólver desempenhou no oeste americano no século 19, quando cada um fazia valer a sua lei. No trânsito, diariamente, testemunhamos a agressividade de motoristas que fazem suas próprias regras de trânsito e tornam-se violentos, simplesmente porque estão dentro de um carro. A lei pune os alcoolizados, mas não pune os que estão bêbados de poder na direção. Cometem abusos de toda ordem, não raro com inocentes vítimas fatais. Para não falar nos mutilados, que carregarão para o resto da vida as sequelas da irresponsabilidade alheia, das famílias órfãs, pais e filhos. A facilidade com que se paga fiança após um morticínio para sair leve e lampeiro e aguardar julgamento em liberdade deveria ser reexaminada à luz da experiência positiva da legislação mais dura de 1997 e 1998, que reduziu pela metade as ocorrências fatais. Esse tipo de delinquente potencial não sente no coração os sofrimentos que causa, mas sente-o no bolso e nas grades. Logo, é no bolso e na privação imediata de liberdade que, nos casos de comprovado dolo, deveria incidir a política de redução do número de mortes por atropelamento. Enquanto se achar que morrer ou ficar mutilado num acidente de trânsito é uma fatalidade, ficaremos no marco da barbárie. É evidente que há uma imprudência de pedestres que concorre para os acidentes. Andar pela rua e não pela calçada, à noite, com roupas escuras é pedir para ser atropelado. Uma campanha educativa nos reeducaria para o fato de que o mundo já não é dos pedestres e que eles também têm de estar informados sobre regras e perigos de trânsito. Aliás, não é preciso estar na rua para ser atropelado. Ainda nestes dias pessoas foram atropeladas na calçada e há os que são atropelados dentro de casa! É verdade que pedestres são obrigados a caminhar pelas ruas, especialmente velhos e crianças, porque as calçadas convertidas em rampas de acesso a garagens têm degraus que podem chegar a meio metro de altura, tornando-as inúteis. Nos atropelamentos mais graves, sobretudo envolvendo ônibus e caminhões, é comum o argumento de que foi falha de freios. Falha de freios é falta de revisão e cuidado, responsabilidade do motorista, mas também do dono. Atropelamentos ocorridos em diferentes lugares do Brasil durante o mês de junho podem ser vistos numa perspectiva que acrescenta indicações aos fatores dessas ocorrências letais. Em Pilar, na região metropolitana de Maceió, no dia de São Pedro, um ônibus arrastou cinco caminhões que transportavam festeiros na caçamba, atropelou e matou 6 cavalos, também de festeiros, atropelou um grande número de pedestres de um cortejo junino e deixou 5 mortos e 77 feridos. Na Rua da Feira, em Bangu (RJ), na véspera de São Pedro, um comerciante, conhecido no bairro por ser contumaz na bebida e dirigir em alta velocidade, com a carteira vencida, atropelou os participantes de outra festa junina, derrubou um muro e um poste e matou 5 pessoas. Tentou fugir sem prestar socorro. Foi agarrado e quase linchado pelas testemunhas. Pagou R$ 800 de fiança e foi para casa. Esses dois casos, como muitos outros, demonstram que existe no Brasil uma guerra de culturas, com vítimas fatais. No uso civilizado da rua em ocasiões festivas da tradição, o verdadeiro cidadão recupera seus direitos sobre o espaço público. Mas motoristas irresponsáveis avançam sobre eles armados com seus veículos e sua cachaça para impor-lhes a nova ordem da máquina mortal. Somos um país anômalo. Chegamos à modernidade do veículo automotor sem termos chegado à civilidade da competência profissional para ter o direito de usá-lo.
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